Multi-instrumentista Paulo Santos faz show de lançamento do álbum ‘ÁraTekoha’ no Sesc Pompeia

Novo trabalho do co-fundador do grupo Uakti é inspirado por cosmovisões de povos indígenas e na pesquisa sobre criação de instrumentos musicais a partir de diversos materiais. Artista também ministra masterclass gratuita sobre seu processo de criação

Crédito: Samuel Mendes 


O compositor, pesquisador sonoro e multi-instrumentista Paulo Santos, integrante fundador do grupo Uakti, sobe ao palco do Sesc Pompeia no dia 19 de junho, às 20h, para fazer um show de lançamento de seu novo trabalho, o disco instrumental “ÁraTekoha”, com participação especial de Josefina Cerqueira e Daniel Nunes. O artista também abre ao público seu processo criativo na masterclass “Os Sons”, que tem entrada gratuita e acontece no dia 20, às 18h.

Originalmente concebido sob o título “Terra”, o projeto amadureceu conceitual e poeticamente ao longo do processo de composição e construção de instrumentos a partir de diversos materiais, culminando na adoção do nome “ÁraTekoha”. Na língua Guarani Kaiowá, esse termo significa “o tempo e o lugar do nosso modo de ser”, um conceito que articula inseparavelmente território, temporalidade, existência e cultura.

Essa noção atravessa todo o álbum, que propõe uma escuta atenta às dimensões invisíveis da terra: não apenas como matéria física, mas como espaço-tempo de vida coletiva, memória, espiritualidade e relação com a natureza. A música emerge como como gesto de conexão e reflexão, dialogando com cosmovisões indígenas e com urgências contemporâneas ligadas à preservação ambiental e cultural.

O álbum apresenta uma sequência de composições que dialogam com elementos do cosmos, da natureza e da relação ancestral entre humanidade e território. O repertório reúne as peças “Preâmbulo – A Gruta (O Profundo do Ser)”, “As Plêiades (Ñokoatero Poero)”, “O Ovo Planetário”, “Terra (Tekoha)”, “Ar (Ára)”, “Trilobita III”, “Sete Mares”, “Sementes Intergalácticas”, “Vulcão”, “14º Baktun (Vibrações do Universo)” e “Átomo”, além do conjunto “Ára – Solos”, formado pelas peças “A Trilobita”, “Água Percutida”, “TriMi”, “Flautaques”, “Garrafão”, “Taquará”, “Girassino”, “Flaubambú” e “Tambor de Cabaça, Folhas e Sementes”, explorando instrumentos singulares e paisagens sonoras construídas a partir de materiais diversos.

Assim como em trabalhos anteriores, Paulo Santos parte da criação de instrumentos musicais com materiais alternativos, muitos deles desenvolvidos em parceria com a musicista e luthier Josefina Cerqueira, explorando timbres singulares e possibilidades acústicas pouco convencionais. “Os instrumentos que construímos não são apenas ferramentas para produzir som. Eles fazem parte da própria narrativa musical e ajudam a construir o sentido das obras”, explica o músico.

O álbum “Tekoha” foi gravado no Estúdio As Três Luas, com mixagem e masterização de Mauricio Takara. Já “Ára – Solos” foi gravado, mixado e masterizado no Estúdio Engenho, por André Cabelo. A capa e o projeto gráfico são de Pedro Vilela, com diagramação de Albino Papa. A criação e direção do projeto são assinadas por Daniel Nunes. Todas as músicas foram compostas e arranjadas por Paulo Santos, que também executa todos os instrumentos. Os instrumentos acústicos foram construídos por Josefina Cerqueira, e a cantora Lisa Santos participa com vocal na faixa “Ára”.

O show

A apresentação de “ÁraTekoha” foi concebida como uma experiência sonora e performativa, que evidencia o processo de criação dos instrumentos e das composições, aproximando o público da dimensão artesanal e investigativa do trabalho.

O show se estrutura em dois eixos complementares. O primeiro é a formação em trio, com Paulo Santos (instrumentos, eletrônica e direção musical), Josefina Cerqueira (instrumentos construídos e objetos sonoros) e Daniel Nunes (eletrônica, processamento sonoro e performance). O segundo reúne peças solo assinadas por Santos, que aprofundam a escuta em texturas, camadas rítmicas e paisagens sonoras construídas em tempo real. 

O concerto alterna momentos de grande densidade sonora com passagens de silêncio e sutileza, criando um fluxo que convida o público a uma escuta expandida e sensorial. Um espetáculo que dialoga diretamente com a música contemporânea, experimental e instrumental.

Reconhecido internacionalmente por sua trajetória como integrante do Uakti — grupo com o qual atuou por 37 anos —, Paulo Santos construiu uma obra marcada pela invenção sonora, pela transversalidade entre música, artes visuais e tecnologia, e por colaborações com artistas como Milton Nascimento, Paul Simon e Philip Glass. Em sua carreira solo, lançou os álbuns Música para Performances e Chama (Selo Sesc, 2022), este último dedicado à temática ambiental e apresentado em diversos palcos do Sesc no Brasil. 

Santos é uma das figuras centrais da música experimental brasileira. Além de sua atuação no Uakti, compôs trilhas sonoras para cinema, dança e artes visuais, colaborando com nomes como o cineasta e o Grupo Corpo, além de projetos com orquestras sinfônicas e artistas da cena experimental internacional.

Masterclasses

Na masterclass “Os Sons”, Paulo Santos apresenta ao público um pouco de seu processo criativo, ao lado da musicista e luthier Josefina Cerqueira, em uma imersão prática nas sonoridades e instrumentos criados para o projeto. 

“‘ÁraTekoha’ nasce de um processo longo de escuta e reflexão sobre o nosso lugar no mundo. A música, para mim, é uma forma de pensar o tempo, a natureza e a relação que temos com a Terra. Este trabalho é um convite para percebermos o planeta com mais sensibilidade e responsabilidade”, afirma o multi-instrumentista. 


Ficha Técnica

TEKOHA: Gravação; estúdio As Três Luas.

Mixagem e masterização, Maurício Takara.

ÁRA SOLOS: Gravado, mixado e masterizado no Estúdio Engenho. André Cabelo.

Capa e projeto gráfico: Pedro Vilela.

Diagramação: Albino Papa. 

Todas as músicas foram compostas e arranjadas por Paulo Santos, que também executa todos os instrumentos. 

Os instrumentos acústicos, foram construidos por Josefina Cerqueira.

Convidada Lisa Santos: vocal na faixa “Ára”.


Serviço

ÁraTekoha, de Paulo Santos

Com Josefina Cerqueira e Daniel Nunes

Quando: 19 de junho, às 18h 

Sesc Pompéia (Teatro) - R. Clélia, 93 - Água Branca, São Paulo

Ingressos: R$60 / R$30 / R$18

Vendas online em https://www.sescsp.org.br/programacao/paulo-santos-4/  ou presencialmente na bilheteria de qualquer unidade do Sesc São Paulo

Classificação: Livre

Duração: 90 minutos

Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida


Masterclass com Paulo Santos

Sala 1 de Oficinas

Quando: 20 de junho, a partir das 17h

Quanto: Grátis 


Sobre as músicas


Preâmbulo – A Gruta (O Profundo do Ser) – 1’34” - A música que abre o álbum evoca o mergulho interior e a reflexão sobre nossa relação com a Terra e o Ar. A base é formada por marimba de vidro e instrumento digital, com solos de marimba de vidro com arco, taquará e TriMi.

As Plêiades (Ñokoatero Poero) – 2’31” - Inspirada no conhecimento astronômico ancestral dos povos originários, a peça faz referência ao aglomerado estelar das Plêiades. Base de Trilobita e instrumentos digitais, com solo de vibrafone e final em polirritmia 5 contra 6.

O Ovo Planetário – 3’44” - Reflexão poética sobre as origens do universo. Base de marimba de vidro, tambor sírio e instrumentos digitais, com solos de flauta Taques, marimba de vidro, TriMi e escaleta.

Terra (Tekoha) – 3’46” - Composição dedicada à resiliência da Terra. A música apresenta ostinato rítmico com base de marimba de angelim, woodblock, instrumentos digitais, djembezinho, congas e caxixis, com solos de vibrafone e instrumentos digitais.

Ar (Ára) – 2’10” - Reflexão sonora sobre a atmosfera do planeta e as mudanças climáticas. Base com flauta Taques, pius de bambu, Trilobita, ganzá do MST, tambor sírio e instrumentos digitais, com participação vocal da cantora Lisa Santos.

Trilobita III – 3’12” - Inspirada no instrumento-fóssil Trilobita, a música aborda a temporalidade profunda da Terra. Base com Trilobita, caxixis e surdo, com solo de marimba de vidro e pius.

Sete Mares – 2’15” - Composição dedicada à fluidez da água e às paisagens oceânicas. Base de piano, percussões e instrumentos digitais, com solos de cachú e flauta Taques.

Sementes Intergalácticas – 5’34” - Reflexão sobre o ato de semear e os ciclos da vida. Base de água percutida, instrumento de folhas, tambor de cabaça, instrumentos digitais e djembe, com solos de flauta de bambu, flauta Taques e vibrafone.

Vulcão – 3’28” - Paisagem sonora inspirada no magma terrestre. Base de tubos percutidos, marimba de angelim e instrumentos digitais, com solo de marimba de vidro.

14º Baktun (Vibrações do Universo) – 3’00” - Inspirada no calendário Maia e na pulsação do universo. Base e melodia em piano elétrico FM, com solo de SaxTubo.

Coda – Átomo – 3’08” - Reflexão sobre ciência, poder e responsabilidade humana diante do planeta. Base de instrumentos digitais e garrafão, com solos de vibrafone e flautas de bambu.

ÁRA SOLOS

A Trilobita - 2’29” - Instrumento de tubos de pvc afinados e pele. O solo é também uma homenagem ao grande percussionista Naná Vasconcelos.

Água Percutida - 1’09” - Possibilidades sonoras percutindo uma bacia de água.

TriMi - 2’51” - Instrumento criado por Marco A. Guimarães para o grupo Uakti. Três cordas afinadas em MI. Utilizando arco e baquetas.

Flautaques - 1’37” - Flauta criada por André Taques, dupla saída de som.

Garrafão - 1’26” - Presente do querido percussionista John Bergamo, da CalArts, Califórnia, garrafão de 5 galões, sonoridade única.

Taquará - 1’24”- Instrumento reciclado originário da Tailândia.

Girassino - 1’15” - Instrumento de teclas de metal giratório, criação e construção de Márcio Vieira, que me deu de presente em Brasília.

Flaubambú - 1’05” - Flauta de bambú inspirada nas flautas indígenas da tribo dos Tukano. 

Tambor de cabaça, folhas e sementes - 2’46” - Tendo sua  origem em Trinidad e Tobago, uma cabaça seca que pode ser tocada invertida, dentro d’água. Instrumento de resistência na luta do povo preto daquele território. Folhas e sementes do Pará, transformadas em instrumentos por Ronaldo Curuperê.

Comentários