Turma do Pagode lança o álbum "Turma Canta Zeca Pagodinho"
Escute: https://SMB.lnk.to/
Assista: https://www.youtube.com/
Por LEONARDO BRUNO
Um grupo de amigos apaixonados por samba se junta para tocar num bairro da Zona Norte, numa roda acústica, sem microfone, com um som bastante percussivo e apoiado na harmonia do banjo. Eles são descobertos por uma estrela da música, fazem sucesso e lançam seu primeiro disco, produzido pelo craque Milton Manhães.
Essa poderia ser apenas a história dos bambas do Cacique de Ramos e de seu filho mais ilustre, Zeca Pagodinho. Mas também é – sem uma vírgula a mais – a história da Turma do Pagode. Uns 15 anos e pelo menos 400km separam estes dois inícios de carreira: o de Zeca em Ramos, no Rio, fisgado pelo olhar clínico de Beth Carvalho; e o da Turma do Pagode em Santana, em São Paulo, apadrinhados por Netinho de Paula. Depois disso a gira girou e cada um seguiu sua trilha, mas estas trajetórias voltam a convergir agora, em 2026, no álbum “Turma Canta Zeca Pagodinho”: uma celebração aos 40 anos do primeiro LP de Zeca e às bodas de prata da estreia em disco da Turma do Pagode.
O universo Irajá-Xerém sempre orbitou as referências do grupo paulistano. Em meados dos anos 90, quando eles se juntaram pela primeira vez, Pagodinho estava voltando às paradas de sucesso com o disco “Samba pras Moças”, que o levaria ao primeiro time de estrelas da música brasileira, de onde nunca mais saiu. No primeiro álbum da Turma do Pagode (“Ao Vivo”, de 2001), já ficava clara a devoção pelo mestre, com a inclusão dos sambas “Deixa Clarear” e “Vivo Isolado do Mundo”.
Mas, ao longo de três décadas de estrada, os rapazes foram deixando a vida levar e nunca aparecia a oportunidade de dividir uma cerveja com Zeca – nem o microfone. A Turma, então, esperou o momento certo para o sonho se concretizar, o que aconteceu agora de forma superlativa: lançando um álbum inteiro em homenagem a ele, com direito a participação especial e até música inédita gravada em conjunto. Só posso levantar as mãos pro céu!
Tudo foi pensado para deixar o homenageado à vontade. A gravação do álbum ao vivo, em vez de acontecer numa casa de shows tradicional, foi feita no próprio Bar do Zeca, na Zona Oeste do Rio – afinal, amigo nunca fiz bebendo leite. Os convidados foram escolhidos dentro desse universo: o maestro Rildo Hora, produtor musical da maior parte dos discos de Pagodinho; Mauro Diniz, cantor lançado junto com o amigo no LP “Raça Brasileira”; e Noah, o primeiro neto do sambista, “orgulho do vovô”, que cada vez mais vem se animando a soltar a voz nos pagodes.
A base instrumental também foi pensada para uma sonoridade que homenageasse os terreiros pisados por Zeca. A Turma do Pagode já tem uma pegada percussiva forte, com o pandeiro de Rubinho, o surdo de Fabiano Art, o reco-reco de Thiagão e o repique de mão de Neni Art, sem falar no tantã de Leíz, um dos cantores do grupo. O outro vocalista, Caramelo, ataca no banjo, compondo o trio de cordas com o violão de Leandro Filé e o cavaco de Marcelinho TDP.
Além da formação-base do grupo, a banda recebeu músicos convidados, como Carlinhos 7 Cordas (violão), Rodolfo Lemes (contrabaixo), Bira e Marcílio (percussão), Clayton Santos (bateria), Nando (bandolim) e Coringa (sopro). A ideia era chegar a um som que lembrasse as gravações de Zeca, incluindo sopros nos arranjos, introduções elaboradas e uma batucada com bastante peso, marcas dos discos do sambista. O toque de modernidade, para conversar com o público da Turma do Pagode, foi jogar o andamento um pouquinho mais pra frente, sem perder a cadência tão cara ao homenageado.
“Pedindo a Conta”, a canção inédita apresentada pela Turma do Pagode a Zeca, composta por Leandro Filé (violonista do grupo) e Rosyl, também buscou se apropriar do balancê familiar ao sambista. A inspirada letra traz um desabafo de um homem que foi vadiar e vacilou com a namorada depois de tomar umas a mais. Ele resolve, então, pedir conselhos ao cara que mais entende de mesa de bar no Brasil: o próprio Zeca Pagodinho! O resultado é uma faixa divertida que resulta num bom encontro entre os dois mundos, o da Turma e o de Zeca. “Acabei de chegar, já tô pedindo a conta / Eu sei que não vou conseguir sozinho / Me lembrei do maior perito nesse assunto / Eu vou ali falar com o Pagodinho”.
Na escolha do repertório para o tributo, os integrantes da Turma do Pagode tinham um ótimo problema nas mãos: o excesso de boas músicas na discografia de Zeca. Mas como na vida a coisa mais feia é gente que vive chorando de barriga cheia, eles optaram por um equilíbrio entre os hits obrigatórios e as canções menos conhecidas, mas que têm valor afetivo para o grupo.
Neste mergulho no repertório do mestre, aparecem todas as fases de sua carreira. Do icônico primeiro disco, que vendeu mais de 1 milhão de cópias, surgem clássicos como “Coração em Desalinho”, de Monarco e Ratinho, momento mais explosivo dos shows de Pagodinho. E ainda uma seleção de partido-alto de se tirar o chapéu, de compositores como Serginho Meriti, Arlindo Cruz, Wilson Moreira, Acyr Marques e Beto Sem Braço: “Judia de Mim”, “Casal Sem Vergonha”, “SPC”, “Brincadeira Tem Hora” e “Quando eu Contar (Iaiá)”! Só pedrada!
Dois álbuns do fim dos anos 90 também aparecem com destaque. “Hoje é Dia de Festa”, de 1997, traz obras de dois compositores que contribuíram com muitos sucessos na carreira de Zeca: “O Dono da Dor”, de Nelson Rufino; e “Posso Até Me Apaixonar”, de Dudu Nobre. Também vêm desse disco “Faixa Amarela”, rara parceria de Zeca com o próprio pai, seu Jessé; e “Lama nas Ruas”, que ganhou ali seu primeiro registro na voz de Pagodinho, depois de estourar em gravação do parceiro Almir Guineto. Além desses hits, a Turma do Pagode também pescou “Nega Dadivosa”, pérola escondida que traz todo o ambiente das paqueras do subúrbio.
Já o álbum de 1998, conhecido como “álbum branco”, entra com quatro sucessos de estilos bem diferentes: o outro clássico inescapável de Monarco e Ratinho, “Vai Vadiar”; a romântica “Ainda é Tempo Pra Ser Feliz”; o samba-devoção “Minha Fé”; e o tributo à ginga carioca de “Sem Essa de Malandro Agulha”.
Os sucessos dos anos 2000 também estão na lista: “Quando a Gira Girou”, “Quem é Ela”, “Ogum” e, claro, o arrasa-quarteirão “Deixa a Vida me Levar”. Até a recente “Mais Feliz”, de Toninho Geraes e Paulinho Rezende, lançada em 2019, no último álbum de inéditas de Zeca, aparece na seleção da Turma do Pagode.
Mas o grupo não quis ficar preso apenas às canções conhecidas do grande público e resolveu passarinhar pelo “lado B” da carreira de Zeca. São músicas que ficaram esquecidas nos álbuns do passado e que agora ganham cara de “lançamento” quando são apresentadas à nova geração de fãs da Turma: “Mania da Gente”, que deu título ao disco de 1990; “Mãos”, que não aconteceu na voz de Pagodinho, mas que depois foi resgatada por seu autor, Almir Guineto; e “O Sol e a Brisa”, joia pinçada do terceiro disco de carreira do sambista.

“O Sol e a Brisa”, aliás, foi o mote perfeito para o convite a uma das participações especiais: Mauro Diniz. Filho de Monarco, o portelense é amigo de Zeca desde a época em que só sobrava o bagaço da laranja. Os dois estrearam juntos em disco, no pau-de-sebo “Raça Brasileira”, e são parceiros em sucessos como “Menor Abandonado”. Em “Turma canta Zeca Pagodinho”, Mauro Diniz participa da faixa que traz “O Sol e a Brisa” (parceria sua com Franco) e “Minta Meu Sonho” (de Jorge Aragão).
Rildo Hora é referência quando se pensa na carreira de Zeca. Tanto por sua atuação como produtor dos discos do sambista a partir de “Samba pras moças”, de 1995, quanto por sua inseparável gaita, que volta e meia aparece nos sucessos de Zeca. Pois Rildo foi convidado em dose dupla pela Turma do Pagode. Tocou seu instrumento na linda versão do grupo para “Ogum” e ainda fez os arranjos de “Mãos”, “Ogum” e “Lama nas Ruas”.
Outra participação marcante foi a de Noah, o neto de Pagodinho. Com apenas 15 anos, o rapaz já havia gravado um single, “Fé e esperança”, tocado percussão em shows e se destacado numa live beneficente em que cantou “Naquela Mesa”. Mas sempre na companhia do avô. Agora foi para o campo de jogo sozinho: cantou ao vivo “Lama nas Ruas”, uma das músicas mais densas do repertório. E deu conta do recado.
A performance de Noah, aliás, rendeu um dos momentos mais emocionantes da gravação. Enquanto o rapaz cantava, Zeca ficou assistindo a tudo de camarote, concentrado, atento a cada detalhe. Era visível em seu rosto o misto de tensão e de orgulho. Quando o número terminou, Zeca voltou ao palco para abraçar o neto e festejar com ele o bom desempenho. Era a profecia de seus versos se realizando: “Sou bom filho, sou bom pai, quero ser um bom avô...”
Outro momento divertido da gravação ao vivo foi quando Zeca participou do medley de “Não Sou Mais Disso” e “Mania da Gente”. A primeira canção, que faz parte de seus shows até hoje, o sambista cantou sem dificuldades. Quando entrou a segunda música e a Turma do Pagode engatou os versos iniciais (“Nos convidaram pra uma festança / Tinha show de dança e de balé / Nunca vimos tanta comilança / Enchemos a pança de canapé”), Zeca falou: “É muito antigo, eu não lembro!”, disse ele, aos risos, do samba gravado há mais de 25 anos. Mas a memória de Zeca nunca falha quando é pra lembrar dos compositores: “Isso é Mário Sérgio e Carica, não é?”. Bingo.
“Turma Canta Zeca Pagodinho” brinda o público com uma das homenagens mais lindas que o sambista recebeu ao longo de seus quase 45 anos de estrada. Zeca já foi enredo de escola de samba, virou estátua nas ruas de Xerém, ganhou todos os prêmios que se possa imaginar. Mas esse mergulho em sua obra, feito por colegas de profissão, sambistas como ele, tem sabor especial.
Quando idealizaram esse projeto, os integrantes da Turma do Pagode disseram que Zeca era mais do que um ídolo. Era um herói! E dá pra entender esse sentimento: o super-herói é alguém que povoa sua imaginação desde muito cedo e que tem poderes especiais para realizar algo verdadeiramente importante. É o caso de Zeca. Pra conquistar um país inteiro, ele não precisa fazer feitiço, macumba ou coisa assim. Só precisa fazer samba. E a vida é melhor pra mim. Pra gente. Pra turma toda!



Comentários
Postar um comentário