BAÚ DA DEDÉ - LANÇAMENTO de ACERVO INÉDITO DA CULTURA CAIÇARA

 Material colhido por 50 anos pela pioneira folclorista Iracema França é lançado em São Sebastião

Retrato de Dona DedéAcervo Iracema França

Em 17 de março, acontece na Casa do Patrimônio, em São Sebastião, o lançamento do projeto Baú da Dedé, que traz ao mundo um acervo precioso sobre o patrimônio caiçara. Até então guardado pela família da folclorista Iracema França (1919-2009), agora estará disponível fisicamente na Casa do Patrimônio, que abriga o Arquivo Histórico de São Sebastião (SP),  e no site www.baudadede.com.br (confira acesso exclusivo para imprensa ao final do release). 

Com programação voltada a pesquisadores, estudantes e todos interessados em conhecer o acervo, o evento terá visita guiada, exibição de minidocumentário sobre o projeto e pequena exposição que permanece até final de julho de 2026. Até lá, escolas e grupos podem agendar visitas por e-mail (contato@fundass.com.br) ou presencialmente, às terças-feiras e sextas-feiras, às 9h e às 14h. 

Na antiga residência de Dona Dedé, em Ilhabela (SP), onde hoje funciona o restaurante e bar Casa Barca, haverá um evento fechado no dia 18 de março, também para celebrar a inauguração do projeto.

Dona Dedé, como era carinhosamente conhecida, dedicou sua vida a estudar, preservar e promover a cultura caiçara, sobretudo em Ilhabela (SP), cidade de origem de sua família materna. Sua pesquisa tem ênfase no século 20 e acumula um dos mais ricos acervos do litoral de São Paulo, tornando a intelectual uma grande referência para a região.

A vasta coleção, reunida incansavelmente por cerca de 50 anos, soma mais de 5 mil fotografias, 50 fitas de áudio e vídeo, além de centenas de documentos, livros, manuscritos, reportagens e artigos. São destaques a Congada de São Benedito, o Caiapó e a Folia de Reis, entre outras manifestações culturais e religiosas tradicionais, bem como elementos fundamentais do modo de vida caiçara, como a pesca artesanal, as casas de farinha, o artesanato e as moradias

No site, esses assuntos estão divididos em 17 galerias temáticas que levam o navegante a mergulhar no tempo, visitando uma mostra seleta da pesquisa de Dona Dedé de múltiplas formas. Ali se encontram gravações originais de músicas e ritmos tocados em festas de outrora, imagens de Super8, trechos de depoimentos de antigos caiçaras, manuscritos da própria folclorista etc. Pelo site também é possível acessar um link para consultar o acervo na íntegra.  

Pessoas cegas ou com baixa visão contam com recursos de acessibilidade na plataforma: mais de 70 imagens das galerias têm audiodescrição; e uma parte do site está disponível em libras, incluindo vídeo de boas-vindas para que a comunidade surda também possa navegar.   

Uma mulher à frente de seu tempo

Em uma seara dominada, como tantas, pelo mundo masculino, surge na década de 1960 uma folclorista pioneira. Iracema seguiu preceitos acadêmicos que adquiriu em formação especializada em instituições referência à época, como a Escola Paulista de Folclore, onde foi orientada pelo renomado especialista Rossini Tavares de Lima. No entanto, rompeu com um importante paradigma: o de que um pesquisador deveria realizar seus estudos sem se envolver com o objeto estudado. 

“Apesar de muitos críticos acreditarem que não se deve interferir nos grupos folclóricos, pois eles perdem sua espontaneidade, se não fosse dado um apoio financeiro e logístico aos grupos de Congada, Caiapó e aos cantadores de Reis de Ilhabela, todos eles teriam morrido", afirmou Dedé em um dos seus textos autobiográficos disponíveis no acervo.

Enquanto seus contemporâneos mantinham o olhar a partir de um lugar externo, Dedé seguia sua pesquisa com um olhar de dentro, se envolvia na organização dos eventos, angariava fundos e vivia intensamente cada manifestação cultural que estudava. Esse aspecto, justaposto ao rigor metodológico, traz um teor feminino de cuidado e sensibilidade que confere uma abordagem única ao seu trabalho. 

É importante, ainda, destacar que o acervo nasceu de um gesto audacioso de Dedé, que ousou valorizar a cultura popular em um contexto intelectual que privilegiava quase exclusivamente as "altas culturas". 

Olhar feminino sobre o acervo 

Seguindo os passos da pesquisadora, a equipe do projeto Baú da Dedé é inteiramente formada por mulheres. Profissionais da cultura, comprometidas a salvaguardar e democratizar o acervo. 

Produtora executiva do projeto e sobrinha-neta de Dona Dedé, a cineasta Juliana Borges dirigiu outros dois projetos que utilizam áudios, vídeos e anotações do acervo da pesquisadora, evidenciando sua relevância como material fundamental para produções culturais. No documentário “O Último Baile", comissionado pela Unesco para integrar o acervo da Ilha Museu, ela conta sobre a Congada em Ilhabela, e no podcast  “Esse Tal de Caiapó", resgata memórias sobre extinta manifestação cultural caiçara. “Depois de 15 anos fechado, era urgente que esse acervo fosse restaurado, digitalizado, organizado e, principalmente, acessível para as pessoas",  afirma Juliana, que também é uma das fundadoras do Citronela Doc - Festival de Documentários de Ilhabela.

Maristela Colucci, responsável pela curadoria e pela coordenação de produção do projeto, também traz uma relação especial com a pesquisadora: “Conheci Dona Dedé em 2000, quando fotografava a congada para o meu livro ‘Meninos da Congada’, publicado em 2011. Ela foi minha madrinha, me apresentando aos congueiros, mostrando-me com entusiasmo suas anotações e croquis. Eu não poderia imaginar que, 25 anos depois, esse acervo me cairia nas mãos para editar!”.

Sobre o processo de inventário, higienização, restauro e catalogação do acervo, a arquivista  Daniela Outi comenta que o principal cuidado da equipe feminina do Arquivo Histórico de São Sebastião foi “respeitar a lógica de organização criada pela própria Dedé, permitindo que o público acesse os documentos a partir do olhar dela.”

Débora Bergamini, na pesquisa histórica e textos; Maria Claudia França Nogueira, sobrinha de Dona Dedé, na pesquisa e identificação do material; Fernanda Palumbo, na consultoria; Cristiane da Silva, técnica de arquivo e Erika Palumbo, na catalogação, somaram, ao lado de outras mulheres, o time que por meses se dedicou à abertura deste vasto baú que conta sobre o folclore caiçara para o mundo.

Preservação e democratização do baú 

O projeto ‘Baú da Dedé’ é realizado pela Ver Para Crer Produções, produtora com sede em Ilhabela, com financiamento do Governo do Estado de São Paulo, por meio do Programa de Ação Cultural (ProAc) da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo. O projeto contou com o apoio da Grão Editora e da Prefeitura de São Sebastião, por meio da Fundação Educacional e Cultural Deodato Sant'anna (Fundass), que é responsável pela Casa do Patrimônio – instituição que custodia o acervo em sua totalidade e onde ele pode ser consultado gratuitamente, mediante agendamento pelo e-mail casadopatrimoniosaosebastiao@gmail.com. 

 

EVENTO DE LANÇAMENTO
17/03/26 *** 17h30 às 20h30
Local: Av. Dr. Altino Arantes, 6 - Centro, São Sebastião - SP
Visita guiada, exibição de minidocumentário sobre o projeto e pequena exposição em cartaz até final de julho/26, para pesquisadores, estudantes e interessados em conhecer um pouco do acervo.

VISITAS GUIADAS

Até julho de 2026, a exposição estará aberta para grupos e escolas mediante agendamento às terças-feiras e sextas-feiras, às 9h e 14h. É necessário agendamento por e-mail (contato@fundass.com.br) ou de forma presencial. Nesses dias e horários, a equipe do arquivo será responsável por conduzir visita monitorada à exposição.


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