Termômetro da SP-Arte 2026 vai do resgate histórico e a sofisticação do olhar

Por Flor Pimentel, especialista em mercado de arte, Diretora de Marketing do iArremate e CEO do Guia das Artes.


A 22ª edição da SP–Arte, que abriu suas portas neste 08 de abril no Pavilhão da Bienal, entrega mais do que uma vitrine de vendas; ela oferece um diagnóstico preciso da maturidade do mercado brasileiro. Como alguém que transita diariamente entre o martelo dos leilões no iArremate e o nosso braço dedicado à cultura, o Guia das Artes, percebo que o colecionismo atual atravessa uma fase de "filtração qualitativa". Não se busca apenas a posse, mas a relevância historiográfica.

Âncora do modernismo

O mercado secundário segue encontrando no Modernismo a sua zona de segurança e maior prestígio. A presença de uma tela icônica de Tarsila do Amaral, avaliada em R$ 19 milhões, não é apenas um recorde numérico; é o símbolo de um ativo que ignora crises, mantendo uma resiliência impressionante.

Essa solidez é acompanhada pela sofisticação internacional que o evento respira este ano. Ver um exemplar magistral de Lucio Fontana, com seus cortes que romperam a bidimensionalidade da tela, avaliado em R$ 15 milhões, reforça que o colecionador brasileiro está jogando na liga global. O gesto de Fontana, vindo de uma coleção privada nacional, prova que nosso acervo interno é denso e dialoga diretamente com as vanguardas europeias.

Ancestralidade e a nova vanguarda

Mas a feira não vive apenas de cânones estabelecidos. Há um movimento vibrante em direção à ancestralidade. Nomes como Ayrson Heráclito e o peruano Santiago Yahuarcani trazem camadas de saber que exigem do mercado algo novo: uma documentação biográfica muito mais rigorosa. Estamos vendo a transição do "exótico" para o "essencial", onde a arte contemporânea se torna o repositório de memórias que o mercado finalmente aprendeu a precificar e respeitar.

Design como patrimônio

No setor Design NOW, que celebra uma década, o destaque vai para a maturidade de Rodrigo Ohtake. Aqui, a linha entre o mobiliário e a escultura se torna deliciosamente tênue. O design brasileiro deixou de ser "complemento de decoração" para assumir seu papel como patrimônio cultural. É mobiliário de autor com métricas próprias de valorização, atraindo um colecionador que busca a mesma distinção técnica que encontraria em uma pintura.

Compromisso da memória

As discussões na Arena Iguatemi e no Palco SP-Arte ecoam o que acreditamos no iArremate: colecionar é um ato de preservação. O mercado de arte em 2026 está menos interessado na especulação rápida e mais focado na transparência e na gestão profissional de acervos.

Em resumo, a SP–Arte 2026 nos mostra um Brasil que internacionaliza sua produção sem perder o foco na sua base histórica. Para quem atua na curadoria e no mercado técnico, o cenário é de otimismo pé no chão: a arte brasileira nunca foi tão valorizada, mas o nível de exigência por qualidade e procedência nunca foi tão alto.

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