Fenômeno do alvorecer: por que a glicose pode amanhecer mais alta mesmo sem comer

Alteração ao acordar pode confundir diabéticos e pré-diabéticos; nutricionista explica quando o aumento da glicemia pela manhã merece atenção

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Muita gente mede a glicemia ao acordar, vê um valor mais alto do que esperava e conclui que fez algo errado na noite anterior. Para quem tem diabetes tipo 2, pré-diabetes ou resistência à insulina, essa situação é mais comum do que parece, e se chama fenômeno do alvorecer.

Segundo a nutricionista Bela Clerot (@bela_nutricao no Instagram), o quadro acontece quando o corpo aumenta naturalmente a produção de glicose nas primeiras horas da manhã, em preparação para o despertar. “Antes mesmo de a pessoa abrir os olhos, o organismo já começa a se preparar para acordar. O cortisol sobe, o fígado libera glicose para garantir energia, e isso faz parte do funcionamento normal do corpo. O problema é que, em quem já tem resistência à insulina, essa glicose pode ficar acumulada por mais tempo no sangue”, explica.

Na prática, isso significa que a pessoa pode ir dormir com a glicemia controlada e amanhecer com um número mais alto, mesmo sem ter comido nada durante a noite ou madrugada. “Muita gente pensa: ‘se eu não comi, de onde veio essa glicose?’. Veio do próprio corpo. O fígado produz glicose o tempo todo. E de manhã esse mecanismo pode ficar mais evidente”, diz.

Para Bela, esse é um dos pontos que mais confundem quem acompanha a glicose em casa. Isso porque o aumento ao acordar nem sempre significa piora súbita ou erro isolado na última refeição. Em muitos casos, é um reflexo de um metabolismo que já vem enfrentando dificuldade para lidar com a glicose há mais tempo.

O que acontece no corpo ao amanhecer

De acordo com a nutricionista, o fenômeno do alvorecer está ligado à ação de hormônios que ajudam o corpo a sair do estado de repouso. Um dos principais é o cortisol, conhecido por participar da resposta ao estresse, mas que também tem papel importante no despertar.

Quando esse hormônio sobe nas primeiras horas da manhã, ele sinaliza ao fígado que é hora de disponibilizar energia. O fígado, então, quebra seus estoques e libera glicose na corrente sanguínea. Em um organismo metabolicamente saudável, essa glicose tende a ser bem utilizada e não causar picos perceptíveis. Já em pessoas com resistência à insulina, diabetes tipo 2 ou pré-diabetes, ela pode permanecer elevada por mais tempo e aparecer no glicosímetro.

Não é que o corpo esteja criando um problema ‘do nada’. Ele está fazendo o que sempre fez. A diferença é que agora existe uma dificuldade maior de usar essa glicose com eficiência”, explica Bela.

A glicemia da manhã costuma ser a última a melhorar

Na avaliação da especialista, um dos erros mais comuns é interpretar a glicemia em jejum como se ela resumisse todo o quadro metabólico. Segundo ela, esse número é importante, mas precisa ser lido dentro de um contexto mais amplo.

A glicemia da manhã costuma ser a última a piorar, mas também pode ser a última a melhorar. Às vezes a pessoa já está tendo respostas melhores ao longo do dia, já está mais estável depois das refeições, mas ainda amanhece com a glicose mais alta. Isso não significa, necessariamente, que nada está funcionando, mas sim que o problema não está totalmente sob controle. Pelo menos, não ainda”, afirma.

Por isso, Bela orienta que a avaliação não se limite ao valor medido ao acordar. O ideal, segundo ela, é observar também o comportamento da glicose antes e depois das refeições, além de fatores como sono, estresse, alimentação, uso de medicamentos e sinais de resistência à insulina.

Nem toda glicose alta de manhã é a mesma coisa

A nutricionista também chama atenção para um ponto que costuma gerar confusão: o fenômeno do alvorecer não é a mesma coisa que o chamado efeito Somogyi.

No fenômeno do alvorecer, a glicose sobe pela manhã como resposta hormonal ao despertar. Já no efeito Somogyi, ocorre o contrário: a pessoa tem hipoglicemia durante a madrugada, e o corpo reage produzindo hormônios que elevam a glicose em seguida para compensar. O resultado pode ser parecido ao amanhecer, mas a causa é diferente.

Nem toda glicemia alta pela manhã tem a mesma origem. Por isso, olhar o número isolado sem entender o que aconteceu durante a noite pode levar a interpretações erradas”, completa Bela.

Quando isso merece mais atenção

Segundo a nutricionista, o fenômeno do alvorecer merece investigação quando a glicemia da manhã permanece elevada com frequência, quando o valor ao acordar contrasta com medições melhores ao longo do dia, ou quando aparecem outros sinais como fome exagerada, sonolência depois das refeições, cansaço, dificuldade para emagrecer e gordura abdominal.

Nesses casos, ela defende que a análise não fique restrita à glicemia de jejum. “Muitas vezes, o exame que mais poderia mostrar esse processo acontecendo é a insulina basal, ou insulina de jejum. É um marcador importante da resistência à insulina e ainda pouco valorizado na prática”, afirma.

Para Bela, o problema não é a glicose alta de um único momento, mas o quadro metabólico por trás dela. “O fenômeno do alvorecer existe, mas ele também conversa com o estado metabólico daquela pessoa. Quando o corpo já está sobrecarregado, esse aumento da manhã fica mais evidente”, explica.

O que ajuda a melhorar

De acordo com a especialista, a melhora da glicemia ao acordar não depende de um único truque, nem costuma ser resolvida apenas mudando o jantar da noite anterior. Segundo ela, o jantar pode influenciar, mas não é o fator determinante.

O que pode melhorar o quadro é um trabalho mais amplo de reorganização metabólica: alimentação adequada, redução de picos glicêmicos ao longo do dia, melhora da resistência à insulina, sono de qualidade, controle do estresse e redução da gordura visceral.

“Não adianta tratar a glicemia da manhã como se ela fosse um problema isolado. Quando o metabolismo melhora de verdade, esse número também tende a melhorar. Mas ele pode demorar mais do que os outros”, diz.

Pessoas com diabetes em uso de insulina ou medicamentos que reduzem a glicose não devem fazer ajustes por conta própria diante de alterações na glicemia de jejum. Segundo Bela, qualquer mudança precisa de acompanhamento profissional para evitar riscos como hipoglicemia e descontrole do quadro.

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Quem é Bela Clerot?  

Isabela Clerot, conhecida como Bela, é nutricionista formada pelo UniCEUB, com pós-graduação lato sensu em Alimentos, Nutrição e Saúde e registro no CRN-DF 17718. Atua com foco em saúde metabólica, prevenção e controle do pré-diabetes e do diabetes tipo 2 por meio da alimentação e da mudança de estilo de vida. Ao longo da sua trajetória, já ajudou milhares de pessoas a melhorar a relação com a comida, entender os efeitos da resistência à insulina e buscar mais controle sobre exames, peso, energia e qualidade de vida. 

Criadora de um método próprio e de programas voltados à educação alimentar e ao controle metabólico, Bela se tornou conhecida por abordar temas como glicemia, resistência à insulina, pré-diabetes, diabetes tipo 2 e alimentação de forma prática e acessível. Seu trabalho reúne orientação nutricional, leitura de rotina e esclarecimento sobre hábitos que impactam diretamente a saúde metabólica.


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