Fernando de Noronha completa 523 anos: projeto revela lado submerso da ilha em panorâmicas inéditas
Projeto de Fabi Fregonesi e Raphael Gatti registra 16 pontos de mergulho e mostra, em imagens de grande escala, uma Noronha que poucos conhecem
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| Pedras Secas Fabi Fregonesi |
São Paulo, agosto de 2026 — Fernando de Noronha completa 523 anos nesta segunda-feira, 10 de agosto. Conhecida mundialmente por suas praias, paisagens e biodiversidade, a ilha também guarda uma outra versão de seus cartões-postais, que permanece invisível para a maior parte dos visitantes: a que existe abaixo da superfície.
Fotografias subaquáticas de Noronha já são comuns, mas o projeto Panorâmicas de Noronha propõe uma forma diferente de registrar esses cenários. Em vez de um único enquadramento, as imagens são construídas a partir da união de múltiplas fotografias — de três a mais de 24 capturas — criando panorâmicas que ampliam o campo de visão e permitem compreender melhor a escala das formações submersas.
Idealizado pela fotógrafa subaquática Fabi Fregonesi, primeira brasileira a subir ao pódio do Underwater Photographer of the Year, alcançando o 3º lugar na categoria “Wrecks” (Naufrágios), em parceria com Raphael Gatti, também mergulhador e fotógrafo subaquático há mais de 15 anos, o projeto mapeou, ao longo de uma expedição de três semanas, 16 pontos de mergulho da ilha, entre eles Pedras Secas I e II, Cabeço da Sapata, Corveta V-17 e Trinta Réis.
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| Cabeço da Sapata Fabi Fregonesi |
“Esse projeto nasce de uma inquietação: a sensação de que o que a gente vê no mergulho em Noronha raramente é possível ser traduzido em imagem. A panorâmica foi a forma que encontramos de respeitar a escala do oceano e registrar esse território como ele realmente é: grandioso, complexo, vivo e impossível de ser reduzido a um único enquadramento”, explica Fabi Fregonesi.
A técnica é especialmente relevante na fotografia subaquática porque, quanto maior a distância entre a lente e o objeto, maior a quantidade de água entre a câmera e a cena, o que compromete a nitidez da imagem. Por isso, as fotografias são captadas de perto e posteriormente unificadas, permitindo preservar mais detalhes e texturas na composição final.
“O desenvolvimento do projeto demandou uma estruturação importante, além de muito tempo de estudo para aperfeiçoamento da técnica. Além disso, trabalhar juntos em algo tão inovador trouxe um nível de troca muito intenso. Ao mesmo tempo, no mergulho muitas decisões são silenciosas, no olhar e no tempo de espera. Existe uma sintonia que vai além da técnica, e isso aparece no resultado final”, afirma Raphael Gatti.
Uma nova forma de enxergar os cartões-postais de Noronha
Um dos exemplos mais emblemáticos do projeto está a cerca de 62 metros de profundidade. A Corveta Ipiranga (V-17), navio de guerra que naufragou em 1983 após colidir com o Cabeço da Sapata, ganhou um mural panorâmico formado pela união de três fotografias subaquáticas.
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| Fabi Fregonesi Corveta Ipiranga |
Outro elemento presente nas imagens é o mergulhador, utilizado como referência de escala e perspectiva.
“Muita gente usa o recurso de ter um elemento humano nas fotos. No entanto, no nosso projeto, entendemos que, se não usássemos um mergulhador para compor a imagem, a escala do local se perderia e as pessoas não conseguiriam ter noção do tamanho real daquele ambiente”, detalha Fabi.
No caso da Corveta, o desafio também envolveu o tempo disponível para a captura. Todo o ensaio foi realizado em cerca de 65 minutos, incluindo descida, tempo de fundo, fotografias e subida. Desse período, apenas cerca de 15 a 17 minutos foram destinados efetivamente ao registro do naufrágio, respeitando as restrições de segurança impostas pela profundidade.
“Tivemos cerca de 15 a 17 minutos efetivos para fotografar o naufrágio em si. Todo o restante do mergulho foi dedicado à subida, respeitando rigorosamente os protocolos de segurança exigidos para uma profundidade como essa. Por isso, o planejamento prévio foi essencial, a gente já entrou na água sabendo exatamente o que precisava fazer”, afirma Fabi.
“Não existia margem para erro. A segurança vinha sempre em primeiro lugar, obviamente, mas isso também exigia muita precisão. Precisávamos ser extremamente assertivos nas imagens que queríamos capturar”, completa Raphael.
Uma Noronha ainda pouco conhecida
Reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO e Hope Spot internacional, Fernando de Noronha é conhecida principalmente por aquilo que pode ser visto acima da superfície. Panorâmicas de Noronha propõe ampliar esse olhar ao apresentar uma parte do arquipélago que permanece inacessível para a maioria das pessoas.
Ao organizar os registros como um corpo de obra coeso, o projeto busca apresentar a ilha não apenas como destino turístico, mas como um território submerso monumental e ainda pouco conhecido do grande público.
A iniciativa também reforça o valor ambiental e simbólico de Noronha ao revelar cenários pouco acessíveis e ampliar a percepção sobre a escala desses ambientes.
“Quando a gente mostra a escala e a beleza desses ambientes, a relação muda. Não é uma foto retratando apenas uma pequena parte de um ponto de mergulho, mas se torna um território grandioso que precisa ser preservado. Eu sempre falo que a fotografia tem o poder de aproximar e gerar cuidado, e esse é também um dos nossos objetivos com uma iniciativa dessa: a de encantar e, através do encantamento, convidar as pessoas a serem parte ativa no cuidado com esses paraísos”, completa Fabi.
Realizado de forma independente, sem patrocínio específico, o projeto contou com apoio operacional da tradicional operadora de mergulho Águas Claras, responsável pela logística das saídas e pela viabilização da expedição.
“A gente saiu de Noronha com a sensação de que esse é só o começo: ainda existe muito a ser revelado debaixo d’água”, finaliza Raphael.
Sobre Fabi Fregonesi
Fabi Fregonesi é uma fotógrafa subaquática brasileira que transformou uma virada pessoal em propósito profissional, unindo arte e conscientização ambiental. Depois de duas décadas na publicidade, passou a usar a fotografia como meio de inspirar novas formas de olhar e preservar o mar.
Reconhecida internacionalmente por sua técnica e sensibilidade, foi a primeira brasileira a subir ao pódio do Underwater Photographer of the Year, alcançando o 3º lugar na categoria “Wrecks” (Naufrágios), entre mais de 6.500 imagens inscritas. Com mais de 30 prêmios internacionais em apenas dois anos — como One Eyeland Award e Sony World Photography Awards —, Fabi se consolida como uma das principais referências da fotografia de natureza e arte subaquática no país.
Sobre Raphael Gatti
Raphael Gatti é fotógrafo subaquático e mergulhador, com publicações em revistas nacionais especializadas em mergulho. Entusiasta de novas tecnologias, explora constantemente inovações que ampliam as possibilidades da fotografia subaquática, incluindo equipamentos, processos de pós-produção e técnicas. Apaixonado pelo aprendizado, dedica-se ao estudo contínuo de técnicas, à evolução dos equipamentos e às novas tecnologias, com o objetivo de ampliar os recursos disponíveis para o registro dos ambientes marinhos.





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