Fernanda Lima e Flávia Alessandra ajudam mulheres a reconhecer os sinais da transição hormonal
Relatos de experiências pessoais aproximam a discussão da vida cotidiana e mostram por que tantos sintomas ainda passam sem diagnóstico
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| Fernanda Lima Reprodução: Instagram |
Quando Fernanda Lima diz que o calorão é “o de menos”, a conversa sobre menopausa muda de lugar. A apresentadora fala de memória, sono, libido, ressecamento vaginal e ganho de peso no programa Provoca, de Marcelo Tas. Meses depois, os cortes da entrevista continuam circulando nas redes sociais. Na última semana, Flávia Alessandra também comenta dificuldades vividas durante a transição hormonal e amplia essa identificação.
O que aproxima os dois relatos não é apenas a fama das artistas, mas a maneira como elas descrevem situações comuns à rotina de muitas mulheres. Fernanda fala sobre lapsos de memória, perda de raciocínio e mudanças no corpo, enquanto Flávia relata noites sem dormir, boca seca, queda de cabelo e alterações na pele. Ao exporem essas experiências, elas ajudam a reduzir a sensação de isolamento e mostram que esses sinais, muitas vezes tratados como algo individual, merecem atenção médica.
“Quando uma mulher conhecida fala ‘eu também passei por isso’, ela oferece uma referência que muitas pacientes nunca tiveram. Elas deixam de pensar que estão enlouquecendo, ficando preguiçosas ou perdendo a capacidade de trabalhar. Essa identificação não substitui o diagnóstico, mas pode ser o primeiro passo para que a mulher entenda que precisa investigar o que está acontecendo”, afirma a ginecologista, pesquisadora e especialista em menopausa Fabiane Berta.
Na entrevista que volta a viralizar, Fernanda também chama atenção para a perimenopausa e explica que essa fase pode começar anos antes da última menstruação. Nesse período, muitas mulheres chegam ao consultório com sintomas, fazem exames e ouvem que “está tudo certo” porque ainda menstruam. Sem uma explicação para o que sentem, seguem procurando respostas para alterações no sono, na memória e no metabolismo.
Segundo Berta, um dos pontos menos compreendidos da perimenopausa é que a flutuação do estrogênio pode provocar mais instabilidade do que a própria queda hormonal observada posteriormente. Isso acontece porque o cérebro recebe sinais hormonais irregulares e precisa se adaptar repetidamente a essas mudanças. O resultado pode aparecer na forma de ansiedade que vai e volta, noites fragmentadas e períodos de névoa mental.
“A perimenopausa não é apenas um momento de falta de estrogênio. É uma fase de oscilação, e o cérebro precisa responder continuamente a sinais que mudam. Essa inconsistência na sinalização estrogênica interfere em regiões que participam do controle do estresse, do sono e da cognição. Por isso, a mulher pode estar bem em uma semana e, na seguinte, sentir que perdeu completamente o próprio eixo”, explica Fabiane.
A médica descreve três mecanismos que ajudam a entender essa instabilidade. O estradiol participa da modulação do eixo do estresse, e quando oscila, o cortisol também pode acompanhar essa variação, favorecendo períodos de ansiedade. Ao mesmo tempo, a queda da progesterona reduz a alopregnanolona e o tônus GABAérgico, o que pode interferir na manutenção do sono e contribuir para despertares frequentes durante a noite.
O terceiro mecanismo envolve os receptores de estrogênio no cérebro. Diante das oscilações hormonais, a densidade desses receptores pode aumentar como tentativa de compensação, enquanto o sistema nervoso se reorganiza. Essa adaptação ajuda a explicar episódios flutuantes de brain fog, quando surgem esquecimentos, dificuldade de concentração ou a sensação de perder o raciocínio no meio de uma tarefa.
“Esses três eixos conversam entre si. Ansiedade piora o sono, dormir mal interfere na cognição e a dificuldade cognitiva aumenta a sensação de estresse. Tratar cada manifestação como se fosse um problema isolado pode não resolver a origem do quadro. É um sistema que se retroalimenta e precisa ser compreendido de forma integrada”, afirma a pesquisadora.
Por isso, a avaliação da perimenopausa não depende apenas de um exame hormonal isolado ou da presença de fogachos. Os ciclos menstruais podem continuar enquanto essas oscilações já repercutem no humor, no sono, na memória e na sexualidade. A história clínica, a intensidade das mudanças e a percepção da própria paciente ajudam a formar um quadro mais completo.
“A mulher conhece o próprio padrão. Ela sabe como dormia, como trabalhava, como pensava e como o corpo respondia antes. Quando tudo começa a mudar ao mesmo tempo, precisamos escutar essa história. Perimenopausa não é um diagnóstico feito por uma fotografia hormonal de um único dia. É uma transição que precisa ser compreendida no contexto daquela mulher”, explica Fabiane.
Já o relato de Flávia amplia esse olhar ao trazer manifestações que dificilmente aparecem na primeira associação feita com menopausa. Boca seca, mudanças na pele, queda de cabelo e insônia podem levar a diferentes especialistas antes que alguém considere a transição hormonal como parte da investigação. No material publicado pela atriz, quatro noites seguidas sem dormir mostram o quanto essas alterações interferem diretamente na rotina.
Para a ginecologista e pesquisadora, é justamente aí que a exposição de figuras públicas ganha relevância. “A celebridade não transforma experiência pessoal em evidência científica, mas consegue fazer a pergunta ‘será que isso também está acontecendo comigo?’ chegar a milhões de mulheres. Depois desse questionamento vem a parte médica. O papel da ciência é investigar, diferenciar causas e construir uma conduta individualizada”, finaliza.



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