Revestimentos em peças menores recuperam espaço na arquitetura de interiores

Por Eduardo Boselo, coordenador de design e portfólio da Decortiles


Durante anos, a evolução dos revestimentos pareceu caminhar em uma única direção: peças cada vez maiores, menos juntas e superfícies visualmente contínuas. Essa linguagem continua relevante, sobretudo quando o projeto busca amplitude e uniformidade. O movimento mais interessante de 2026, porém, acontece no sentido complementar. Pequenos formatos, paginações marcadas e superfícies com aparência artesanal voltam a ganhar espaço porque permitem algo que a continuidade absoluta não entrega com a mesma facilidade: ritmo, variação e identidade.

Essa mudança apareceu com clareza no Salão do Móvel de Milão deste ano. A programação do SaloneSatellite 2026 colocou a combinação entre habilidade artesanal e inovação no centro do debate, valorizando projetos em que fabricação digital, materialidade e qualidades táteis convivem. O movimento ajuda a explicar por que superfícies com mais textura, geometrias marcadas e referências artesanais voltaram a ganhar espaço. O interesse pelo artesanal, portanto, não representa uma rejeição à tecnologia. Ele mostra uma tentativa de utilizá-la para recuperar nuances que a produção excessivamente uniforme havia deixado em segundo plano.

É nesse contexto que os pequenos formatos voltam a fazer sentido. Uma peça de 7,5 por 15 centímetros ou de 15 por 15 centímetros obriga o projeto a pensar também na paginação, na direção, nas juntas e na relação entre repetição e diferença. O revestimento deixa de funcionar como uma grande imagem aplicada à parede e passa a participar mais ativamente da composição. Alterar a orientação das peças já é suficiente para modificar a leitura de uma superfície, criando sequências horizontais, verticais ou combinações geométricas sem acrescentar novos elementos ao ambiente.

Esse retorno não deve ser associado apenas a uma nova onda retrô. Essa interpretação reduz demais o fenômeno. Referências orientais, azulejaria tradicional e processos artesanais fornecem repertório histórico, porém a forma de utilizá-los hoje é diferente. O objetivo não deveria ser reproduzir literalmente uma estética do passado ou transformar referências culturais em decoração temática. A oportunidade está em reinterpretar cor, proporção, brilho, irregularidade e gesto manual dentro de espaços contemporâneos. É justamente essa distância entre inspiração e reprodução que separa referência de caricatura.

A cor também recupera importância nesse processo, especialmente depois de um longo período em que paletas muito neutras dominaram os interiores. Tons como oliva, sépia, argila e borgonha voltam a aparecer porque conseguem criar profundidade e presença sem depender de excesso ornamental e, quando aplicados em formatos menores, ganham ainda mais força pela maneira como a repetição, a incidência da luz e as pequenas variações entre as peças modificam a leitura da superfície ao longo do dia. Assim, a escolha deixa de depender apenas da aparência de uma amostra isolada e passa a considerar como cor, paginação e materialidade se comportam dentro do espaço.

O retorno dos pequenos formatos diz menos sobre abandonar grandes placas e mais sobre ampliar novamente o vocabulário disponível à arquitetura. A tecnologia tornou possível produzir superfícies cada vez mais perfeitas, mas essa evolução também abriu espaço para reconhecer que a uniformidade absoluta nem sempre produz os ambientes mais interessantes. Escala humana, ritmo, cor e percepção de gesto continuam relevantes na construção de espaços com identidade, e recuperar essas características com recursos contemporâneos representa uma evolução mais consistente do que simplesmente reproduzir o passado.

Eduardo Boselo é coordenador de produto e portfólio da Decortiles, com mais de 25 anos de atuação na Mohawk Brasil. Possui formação técnica em cerâmica pelo Instituto Maximiliano Gaidzinski e graduação em Química Industrial, com trajetória nas áreas de desenvolvimento e design de produtos. Atualmente, coordena a equipe de design de produto da Decortiles.

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