Varejo vende mais, mas fecha lojas e corta empregos: o que explica a crise do setor no Brasil

Juros elevados, endividamento e avanço do comércio eletrônico ajudam a explicar por que grandes redes enfrentam dificuldades mesmo com as vendas ainda crescendo.

 André  @andrecharone : Divulgação / Consultório da Fama



O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia, envolvendo R$ 17,3 bilhões em dívidas, colocou novamente em evidência uma pergunta que preocupa empresários e investidores: o varejo brasileiro está em crise?


A resposta é mais complexa do que parece. Enquanto grandes redes fecham lojas, cortam empregos e renegociam dívidas, o consumo continua avançando. Em junho, o volume de vendas do varejo cresceu 0,5% em relação a maio e 2,9% na comparação com o mesmo mês de 2025. No primeiro semestre, a alta foi de 1,9%, segundo o IBGE.

O aparente paradoxo mostra que o problema vai além das vendas.


Para o contador e professor universitário André Charone, mestre em negócios internacionais, olhar apenas o faturamento pode esconder a deterioração financeira de uma empresa.


“Uma companhia pode vender mais e, ainda assim, perder rentabilidade e consumir caixa. Quando o custo financeiro cresce mais rápido do que a margem do negócio, vender mais não necessariamente significa ganhar mais dinheiro”, afirma.


Juros pressionam empresas e consumidores

Em agosto, o Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano. Apesar da queda, a taxa continua elevada para um setor que depende fortemente de capital de giro, financiamento de estoques e crédito ao consumidor.


O efeito aparece nas duas pontas: a empresa paga mais para financiar a operação e o consumidor encontra crédito mais caro para parcelar compras.


“A empresa de varejo normalmente compra hoje, mantém estoque, vende parcelado e recebe no futuro. Quando o dinheiro fica caro, toda essa engrenagem passa a exigir muito mais caixa”, explica Charone.


O impacto tende a ser maior em bens duráveis, como móveis, eletrodomésticos, veículos e material de construção, cujas compras podem ser adiadas pelo consumidor.


Dívidas também avançam entre empresas

Outro sinal de alerta está fora das grandes companhias. Em junho, o Brasil superou a marca de 9,1 milhões de empresas inadimplentes, recorde da série da Serasa Experian. Juntas, elas acumulavam R$ 232,9 bilhões em dívidas negativadas.


Para Charone, o dado mostra uma crise que muitas vezes não aparece nas manchetes.

“As grandes recuperações judiciais chamam atenção, mas existe uma crise muito mais silenciosa no pequeno comércio. É o empresário que começa a atrasar fornecedor, imposto, empréstimo ou cartão porque o caixa já não acompanha os compromissos.”


Segundo ele, muitas empresas ainda tentam sustentar a operação recorrendo a crédito, antecipação de recebíveis ou recursos dos próprios sócios. “A crise só se torna visível quando essas alternativas se esgotam.”


Varejo também perde empregos

Os dados do mercado de trabalho reforçam o alerta. Entre janeiro e julho, o comércio eliminou 7.896 postos formais, segundo o Novo Caged. Considerando especificamente o varejo, a redução acumulada chegou a cerca de 51,7 mil vagas no ano.


O movimento acontece enquanto a economia brasileira, no conjunto, continua gerando empregos.


Para Charone, parte dessa diferença é explicada por uma mudança estrutural do setor.

“Uma rede consegue hoje vender bilhões de reais pela internet sem precisar reproduzir a mesma quantidade de lojas, vendedores, caixas e gerentes que seriam necessários em um modelo totalmente físico.”


Consumidor mudou de endereço

O avanço do e-commerce e dos marketplaces aumentou a pressão sobre as grandes redes tradicionais. Estruturas com lojas, estoques distribuídos, aluguel e grandes equipes passaram a competir com operações mais concentradas e digitais.


Além disso, o consumidor consegue comparar preços em segundos pelo celular, o que reduz o espaço para margens maiores.

“Não estamos necessariamente assistindo ao desaparecimento do varejo. Estamos assistindo à transformação do varejo”, diz Charone.


Essa mudança ajuda a entender por que vendas em crescimento podem coexistir com fechamento de lojas e dificuldades financeiras.


Para o especialista, a situação atual é melhor definida como uma crise de rentabilidade, endividamento e modelo de negócios de parte do varejo tradicional.


“O problema não é apenas quanto a empresa vende, mas quanto sobra depois de pagar mercadoria, funcionários, aluguel, impostos e o custo financeiro necessário para manter a operação.”


Na avaliação de Charone, a principal lição da crise é que crescimento deixou de ser sinônimo apenas de expansão física e aumento de faturamento.


“O momento atual mostra que tamanho não substitui eficiência. No varejo, mais importante do que simplesmente vender mais é saber se cada venda realmente gera resultado e caixa.”


Sobre André Charone

 

André Charone é contador, professor universitário e mestre em Negócios Internacionais pela Must University, na Flórida (EUA), com atuação nas áreas de contabilidade, finanças e consultoria empresarial. Possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV, em São Paulo, além de certificações internacionais pela Universidade de Harvard, em Massachusetts, e pelo Disney Institute, na Flórida.

 

É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional. 

 

Seu mais recente trabalho é o livro "Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática", em que apresenta um guia realista para transformar negócios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estratégias de importação, exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários corretos, além de dicas práticas de negociação e prevenção contra armadilhas no comércio internacional. 

 

Disponível em versão física: https://loja.uiclap.com/titulo/ua111005/ 

 

e digital: https://play.google.com/store/books/details?id=nAB5EQAAQBAJ&pli=1 

 

 Instagram: @andrecharone 

 

 


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