Projeto no Recife leva educação ambiental a 50 crianças com oficina de plantio e reaproveitamento de resíduos

Oficina do Projeto SbN Cajueiro reuniu cerca de 50 crianças de 4 a 6 anos para uma experiência prática de plantio, reaproveitamento de resíduos e cuidado com o solo

Gerlaine Ferreira - Coletivo RecifeMangueboyz.

Cerca de 50 crianças de 4 a 6 anos participaram de uma experiência prática de educação ambiental na Escola Municipal Campina do Barreto, na zona norte do Recife. A atividade, realizada pelo Projeto SbN Cajueiro, uma iniciativa da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES), permitiu que os alunos preparassem o solo com substratos, plantassem suas sementes e participarem da rega das mudas. A oficina “Território que Floresce – Manejo do Solo e Substrato” buscou aproximar as crianças de conceitos como solo, matéria orgânica, fertilidade da terra e cuidado com as plantas, transformando conceitos ambientais em uma experiência concreta.

A ação é uma articulação da ARIES com a Educação Infantil da Escola Municipal Campina do Barreto e integra as atividades de engajamento e participação desenvolvidas pelo Projeto SbN Cajueiro. A iniciativa contou ainda com a parceria do Laboratório de Floricultura da Universidade Federal Rural de Pernambuco (LaFlor - UFRPE), e do coletivo Recife MangueBoyz, que atua no projeto como agente mobilizador.

Gerlaine Ferreira - Coletivo RecifeMangueboyz.

Para Dayse Vital, analista de projetos da ARIES, arquiteta e urbanista e mestre em Arquitetura, Projeto e Meio Ambiente, a escola representa um espaço estratégico para a aproximação entre o projeto e a comunidade. “A educação ambiental deve ser entendida como uma estratégia de construção de um futuro melhor para todas e todos, essa perspectiva faz parte do propósito da ARIES e está presente também no Projeto SbN Cajueiro. A escola é um espaço estratégico de aproximação com a comunidade porque reúne crianças, educadores e famílias que vivem ou circulam no território. A realização de atividades em escolas do bairro é uma premissa do nosso projeto, encontrar portas abertas para a educação ambiental nos locais de instrução formal aumenta a esperança de um futuro verde e sustentável a partir da formação de cidadãos conscientes”, afirma.

A escolha pela educação infantil também dialoga com o momento da política educacional brasileira. A Lei nº 15.388, de 14 de abril de 2026, que aprovou o Plano Nacional de Educação para o decênio 2024-2034, estabeleceu entre seus objetivos a promoção da educação ambiental e do enfrentamento das mudanças climáticas em todos os estabelecimentos de ensino. O texto prevê, entre outras estratégias, a participação da comunidade escolar na construção e disseminação de conhecimentos sobre mudanças climáticas, prevenção, adaptação e mitigação, além do incentivo a materiais pedagógicos de educação ambiental.

Gerlaine Ferreira - Coletivo RecifeMangueboyz.

No caso do Projeto SbN Cajueiro, a aproximação com as crianças é uma das frentes de uma estratégia de mobilização mais ampla. O público infantil não é o único foco da iniciativa, que atua em um território formado por diferentes grupos, gerações e formas de relação com o ambiente. Envolver as crianças faz parte, portanto, de uma proposta que busca criar vínculos com diferentes públicos e ampliar gradualmente o repertório da comunidade sobre adaptação climática e Soluções Baseadas na Natureza.

Durante a oficina, o conteúdo foi apresentado de maneira lúdica e prática. As crianças tiveram contato com terra vegetal, composto orgânico, areia, borra de café, cascas de ovo e cascas de banana para preparar o substrato utilizado no plantio. Depois, participaram do cultivo de sementes de feijão, girassol e milho. Caixas de ovos e palitos de picolé também foram utilizados como parte da atividade, incorporando materiais reutilizados à experiência e permitindo discutir, na prática, outras possibilidades de aproveitamento de resíduos.

Gerlaine Ferreira - Coletivo RecifeMangueboyz.

A professora Simone Santos, do Laboratório de Floricultura e Paisagismo e Plantas Ornamentais da UFRPE, Laflor, explica que a atividade procurou relacionar o conteúdo apresentado às possibilidades presentes no cotidiano das crianças. “Buscamos mostrar para as crianças que muitos materiais que normalmente seriam descartados podem ser reaproveitados no cuidado com as plantas. Mais do que ensinar uma técnica, a proposta é proporcionar uma experiência prática de educação ambiental, para que elas compreendam, desde cedo, outras possibilidades de uso para aquilo que temos disponível no nosso dia a dia.”

A proposta também considera o próprio processo de desenvolvimento das plantas como parte da experiência. As crianças puderam participar do preparo, do plantio e da irrigação e levar as plantas para casa ou cultivá-las no ambiente escolar, acompanhando o desenvolvimento daquilo que ajudaram a plantar. Para Fábio Lopes, pesquisador do Laflor, é essencial aplicar educação ambiental na educação infantil. “A educação ambiental precisa ser trabalhada desde cedo, e atividades práticas como essa ajudam as crianças a notarem e respeitarem os ciclos da terra, da água e os diferentes elementos necessários para o desenvolvimento das plantas. Essa experiência é importante ainda para fortalecer a aproximação entre a universidade e a escola, levando o conhecimento para as crianças de maneira acessível e participativa.”

Gerlaine Ferreira - Coletivo RecifeMangueboyz.

A oficina se insere em uma sequência de ações do CAJULab voltadas à integração do público infantil ao projeto. Durante as férias, por exemplo, o projeto realizou um Mutirão de Pintura com Crianças, utilizando uma atividade lúdica para aproximar o público infantil do CAJULab, buscando tornar o laboratório de soluções baseadas na natureza um espaço agregador e apropriado também pelas crianças, que são em geral, familiares de moradores engajados no projeto. A lógica das iniciativas parte da chegada ao território, passa pela criação de vínculos e busca ampliar as possibilidades de participação de moradores, crianças, escola, universidade e parceiros.

Para Renata Wogeley, analista do Projeto SbN Cajueiro pela ARIES, a oficina com a Escola Campina do Barreto representa uma oportunidade de aproximar as crianças do trabalho realizado no CAJULab, mas dentro do ambiente delas. “Trouxemos o CAJULab para a Escola Municipal Campina do Barreto, que fica próxima à nossa sede, pois entendemos que um dos pontos mais importantes do nosso projeto é aquilo que ele deixa para a comunidade, as sementes que ele planta para o futuro. Por isso, essa oficina foi pensada para aproximar as crianças das práticas que estamos desenvolvendo no território, mostrando que algumas dessas possibilidades também podem fazer parte do cotidiano delas.”

Na avaliação da diretora da Escola Municipal Campina do Barreto, Marcia Cilene Lima, a experiência prática também amplia a forma como os conteúdos ambientais podem ser trabalhados com as crianças. A diretora destaca a importância de aproximar o aprendizado da experiência concreta. “Trabalhar a educação ambiental de forma lúdica e prática na escola é uma experiência muito importante. As crianças vivenciam o conteúdo de uma maneira diferente e podem levar esse conhecimento para dentro de suas casas e para a comunidade. É também uma forma de contribuir para a formação dos adultos que, no futuro, estarão cuidando do nosso planeta. A partir da educação ambiental, podemos ajudar a construir uma sociedade mais consciente, mais limpa e melhor para se viver. Estamos muito felizes com essa atividade, porque acredito que colocar a mão na massa faz toda a diferença no aprendizado.”

Gerlaine Ferreira - Coletivo RecifeMangueboyz.

A oficina “Território que Floresce” reforça, assim, uma dimensão do Projeto SbN Cajueiro que vai além da implantação de soluções físicas no território: cria uma oportunidade de sensibilização e de ampliação de repertório sobre o ambiente em que vivem. A proposta não parte da expectativa de que uma única atividade produza mudanças imediatas de comportamento, mas da construção gradual de experiências que possam fortalecer a relação das diferentes gerações com o território.

O protagonismo comunitário é, também, eixo essencial do projeto. Para Amaro Afonso, cofundador do coletivo Recife MangueBoyz, que atua como agente mobilizador do Projeto SbN Cajueiro, a ampliação do alcance da educação ambiental ultrapassa o espaço escolar. “Quando a gente envolve as crianças em uma atividade prática como essa, elas deixam de ser apenas receptoras do conhecimento e passam a ser protagonistas desse aprendizado. O que é vivenciado na escola pode chegar aos lares por meio delas, despertar conversas com as famílias e até incentivar novas práticas dentro de casa. É uma forma de fazer a educação ambiental circular pelo território, porque a criança aprende, se envolve, compartilha o que descobriu e pode se tornar uma ponte entre a escola, a família e a comunidade.”

Ao integrar escola, universidade, profissionais e diferentes atores que já participam das ações no Cajueiro, a experiência mostra como a educação ambiental pode ser incorporada às estratégias de mobilização comunitária. No contexto do Dia das Crianças, a oficina oferece um ponto de partida para discutir a importância de construir, desde os primeiros anos, experiências de contato com o ambiente, sem separar o aprendizado sobre natureza da vida cotidiana e das relações que as pessoas estabelecem com o lugar onde vivem.

Sobre a ARIES

A ARIES (Agência Recife para Inovação e Estratégia) é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos, que atua há mais de dez anos no desenvolvimento de projetos socioambientais culturais e educacionais. Com sede em Recife (PE), a instituição tem como missão promover o desenvolvimento sustentável das cidades, conectando a sociedade, o poder público e o setor privado para impulsionar cidades mais inovadoras, sustentáveis, resilientes e menos desiguais. Ao longo de sua trajetória, a ARIES já realizou diversas iniciativas em parceria com órgãos públicos, empresas e outras organizações da sociedade civil, impactando positivamente milhares de pessoas em diferentes territórios. Na área de Soluções Baseadas na Natureza, executou o primeiro Jardim Filtrante em parque público no Recife e, atualmente, conduz o projeto SbN em Cajueiro, iniciativa desenvolvida no âmbito do edital Fundo Clima – Periferias Verdes Resilientes, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.


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