No Flamengo, arte brasileira e design modernista contam a história de um apartamento assinado por Pedro Coimbra

Em um edifício da década de 1940, no Rio de Janeiro, o arquiteto preserva a arquitetura original e abre espaço para um acervo construído ao longo dos anos, com obras de artistas brasileiros, peças de design e objetos que fazem parte da história dos moradores

Crédito das fotos: Daniela Magario

Há apartamentos que revelam seus moradores antes mesmo de apresentar os ambientes. Neste, localizado em um edifício dos anos 1940, no Flamengo, no Rio de Janeiro, a história começa no hall de entrada e se estende por uma coleção de arte brasileira, móveis de diferentes épocas e objetos reunidos ao longo da vida. Assinado pelo arquiteto Pedro Coimbra, o projeto encontra na arquitetura original o cenário para um acervo profundamente pessoal. Do lado de fora, a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar lembram que a paisagem também faz parte do apartamento. 

Os ambientes amplos, o pé-direito alto, as portas largas e os pórticos preservados dão a medida da arquitetura da época. Em vez de alterar essa estrutura, Pedro Coimbra trabalhou a partir dela, acomodando o repertório dos moradores em espaços que mantêm a elegância de suas proporções originais.

Crédito das fotos: Daniela Magario

A arte tem presença marcante no apartamento. Formado quase inteiramente por trabalhos de artistas brasileiros ou radicados no país, o acervo foi reunido ao longo dos anos e revela interesses que atravessam gerações. Obras contemporâneas dividem espaço com manifestações da arte popular, em uma seleção que acompanha a história da família e participa da rotina da casa.

Logo na entrada, uma antiga porta de ferro, um espelho de grandes dimensões e pedras reaproveitadas convivem com carrancas de madeira e obras de Aberaldo, artista da Ilha do Ferro, em Alagoas, Dudu Garcia, Rosina Becker e Yuri Simões. O banco de Sérgio Rodrigues encontra lugar entre vasos de Sabrina Cuiligotti e peças da coleção de Paloma Danemberg. A presença de uma coleção de patinhos, próxima a uma obra de Raul Mourão, introduz uma dose de humor e revela a liberdade com que os moradores construíram seu universo particular.

Crédito das fotos: Daniela Magario

Na área social, o piso de madeira original percorre a sala de estar e a sala de jantar, que compartilham um mesmo espaço. A amplitude favorece os encontros, enquanto o mobiliário organiza diferentes áreas de convivência. Nas paredes, trabalhos de grandes dimensões de Arthur Grangeia dialogam com obras de Antonio Kuschnir e Duda Morais. A seleção inclui peças de Neguinha, Mestre Cida e Zé Bezerra, além de referências à produção artística indígena.

Entre os móveis, clássicos do design brasileiro encontram novas companhias. A mesa de centro Pétalas, de Jorge Zalszupin, divide a cena com um banco do mesmo autor e com a poltrona Mole, de Sérgio Rodrigues. Há também peças de Joaquim Tenreiro, que ajudam a compor uma sala marcada pela diversidade de desenhos e procedências.

Crédito das fotos: Daniela Magario

Um antigo móvel usado como queijeira foi transformado em aparador e hoje recebe uma coleção de obras de Aberaldo. A escolha resume uma característica do projeto: peças que já tiveram outras funções encontram novos usos, preservando as marcas de sua trajetória. Trabalhos de Yutaka Toyota e Véio, nome artístico de Cícero Alves dos Santos, ampliam o encontro entre a produção contemporânea e a tradição escultórica popular.

Crédito das fotos: Daniela Magario

Na sala de jantar, Brasília surge como referência no desenho da mesa, acompanhada por cadeiras Lúcio Costa, de Sérgio Rodrigues. Nas cabeceiras, duas cadeiras de Oscar Niemeyer completam o conjunto. O mobiliário modernista ocupa seu lugar entre as obras de arte e os objetos pessoais, em uma composição distante da rigidez de um ambiente de exposição.

Crédito das fotos: Daniela Magario

A varanda guarda outra particularidade do imóvel: o piso de pedra original, mantido no projeto. Ali, a vista para a Baía de Guanabara se abre diante de um conjunto de móveis que convida a permanecer. As poltronas Tetê, de Sérgio Rodrigues, aparecem ao lado de uma mesa de centro azul e de uma escultura de Beto Gatti. Uma mesa de mosaico, também azul, reúne cadeiras listradas em azul e branco, enquanto uma poltrona de aço inox, de Zanine, introduz outra linguagem ao ambiente.

Crédito das fotos: Daniela Magario

Nichos arqueados nas paredes abrigam livros e obras de arte, prolongando o repertório presente nos demais cômodos. Entre a arquitetura preservada e a paisagem carioca, a varanda assume o caráter de uma sala aberta para a cidade.

Crédito das fotos: Daniela Magario

As portas de correr levam à sala de TV, onde o desenho dos interiores acompanha uma rotina mais reservada. O sofá generoso e as almofadas convidam ao descanso, enquanto mesas laterais produzidas com mármore reaproveitado retomam o interesse por materiais que ganham uma segunda vida. No escritório, a marcenaria original permanece como parte da identidade do apartamento, acompanhada por obras de arte.

Crédito das fotos: Daniela Magario

Na suíte principal, a cabeceira de pedra, de textura expressiva, torna-se o elemento de destaque. Mesas laterais de mármore acompanham a cama, e a presença de obras de arte mantém a relação com os demais espaços. O banheiro reúne uma bancada de madeira com duas cubas, enquanto o closet conserva os armários originais. Os quartos das meninas completam a área íntima, reservada à rotina familiar.

Crédito das fotos: Daniela Magario

Ao percorrer o apartamento, percebe-se que a identidade dos interiores nasce menos de uma escolha estética previamente estabelecida e mais da convivência entre peças que chegaram à casa em diferentes momentos. O modernismo de Sérgio Rodrigues, Jorge Zalszupin e Joaquim Tenreiro encontra a inventividade dos artistas populares brasileiros. Objetos herdados ou garimpados ganham lugar ao lado de obras contemporâneas, sem hierarquias aparentes.

A arquitetura de Pedro Coimbra dá espaço a essa história sem tentar reorganizá-la em torno de uma única linguagem. Preserva o que o edifício tem de original e acolhe o que os moradores trouxeram consigo. No Flamengo, diante de uma das paisagens mais conhecidas do Rio, o apartamento encontra sua singularidade justamente naquilo que pertence à vida de quem o habita.

Arquiteto Pedro Coimbra - Crédito da foto Tiago Morena


Pedro Coimbra Arquitetura

@pedrocoimbra_arquitetura

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