Paisagens Imaginárias Eder Santos devolve a quatro cidades do Brasil o que elas perderam de vista

Paisagens que sumiram do horizonte reaparecem em obras de realidade aumentada, no ponto exato onde existiam e ao alcance de qualquer celular; Com curadoria de Luiz Gustavo Carvalho, a itinerância começa em Cachoeira e São Félix, na Bahia, em 13 de novembro, e segue para Belém, Ceilândia e Itabira. Toda a programação é gratuita

Imagem do vapor em Cachoeira, na Bahia. Foto: divulgação Trem Chic

Cachoeira (BA), Belém (PA), Ceilândia (DF) e Itabira (MG), outubro de 2026 – No Recôncavo baiano, o vapor que ligava Cachoeira a Salvador parou de apitar e levou junto o ritmo de duas cidades ribeirinhas. Em Itabira, o Pico do Cauê sustentava o horizonte até a mineração consumi-lo por inteiro. Na Baía do Guajará, um brigue ancorado entrou para a história do Pará pelo massacre ocorrido a bordo. Em Ceilândia, a caixa d’água virou símbolo de uma cidade que nasceu porque os operários de Brasília foram empurrados para fora da capital que ergueram. São quatro paisagens transformadas ou desaparecidas, e todas seguem vivas no que as pessoas contam. É desse material, o que ficou guardado em quem viu, que o artista Eder Santos parte. De 13 de novembro em diante, uma a uma, as quatro voltam ao espaço público das próprias cidades, recriadas no ponto exato de onde sumiram.

Paisagens Imaginárias tem curadoria de Luiz Gustavo Carvalho, realização da Trem Chic e patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Cultural e da Lei Rouanet. O projeto percorre quatro cidades brasileiras entre novembro de 2026 e 2027 e usa videoarte, videomapping e realidade aumentada para reinscrever no território aquilo que dele desapareceu. O celular de quem passa é o que faz a paisagem reaparecer: em pontos sinalizados do espaço urbano, a câmera lê um QR Code e a obra se sobrepõe à cena real, no mesmo enquadramento em que existia.

A escolha pela realidade aumentada responde a uma pergunta simples que atravessa o projeto inteiro: quem guardou a memória daquilo que sumiu? A curadoria chama de guardiães da memória as pessoas, os objetos, os documentos, as narrativas orais e as manifestações culturais que seguem transmitindo experiências que a paisagem já não registra. Estão aí a poética de Carlos Drummond de Andrade, as joias de crioula do Recôncavo, o testemunho de João Tapuia e a resistência dos candangos de Brasília. Cada obra nasce de pesquisa feita no próprio território, com escuta de moradores, consulta a acervos e levantamento de fotografias e registros audiovisuais.

O projeto chega às cidades sem uma obra pronta. A construção envolve pesquisa de campo, interlocução com pesquisadores e instituições locais e testemunhos de gente do território, e esse processo se desdobra em oficinas, encontros públicos e visitas mediadas, de modo que o público participa enquanto a obra se forma. A tecnologia entra como linguagem artística capaz de sobrepor tempos diferentes e tornar visível, agora, algo que pertence à história e à lembrança.

São 24 totens com QR Code ao todo, seis por cidade, instalados nos pontos de onde cada paisagem podia ser vista. Eles permanecem no espaço público por pelo menos três anos depois de encerrado o período expositivo, de modo que a exposição deixa de ser um acontecimento efêmero e passa a ser uma camada contínua da paisagem urbana, disponível a quem passar pelo lugar com um telefone na mão.

Quatro cidades, quatro ausências

A itinerância abre em Cachoeira e São Félix, no Recôncavo baiano, cidades separadas apenas pela ponte sobre o Rio Paraguaçu. A paisagem investigada ali é a do próprio rio e das camadas históricas acumuladas em suas margens, com destaque para o Vapor de Cachoeira, embarcação que durante décadas organizou a vida econômica e social da região. Quando o vapor chegava, a cidade parava. O desaparecimento da embarcação sobreviveu em fotografias, documentos e relatos de quem a viu atracar. A pesquisa dialoga também com as diferentes narrativas de independências associadas ao Recôncavo, revoltas de cunho popular, cujos protagonistas populares foram muitas vezes sistematicamente apagados das versões oficiais da História.

Em Itabira, Minas Gerais, a paisagem ausente é o Pico do Cauê, elevação que servia de referência para a cidade desde os relatos do século XVIII e foi consumida pela extração de minério ao longo do século XX. A poesia de Carlos Drummond de Andrade, nascido na cidade, tratou da relação entre mineração e paisagem muito antes de o assunto virar pauta corrente, e funciona como um dos fios da pesquisa local. A exposição ocupa a Casa Museu Carlos Drummond de Andrade.

Pico do Cauê antes da extração mineral. Foto: divulgação Trem Chic

Em Belém, no Pará, o trabalho se volta para o Brigue Palhaço, embarcação ancorada na Baía do Guajará que ficou na memória da cidade pelo massacre ocorrido a bordo em 1823. O relato de João Tapuia, único sobrevivente, está preservado no arquivo público do Estado, documento que a curadoria pretende levar à mostra, montada no Espaço Cultural Casa das Onze Janelas.

A pintura retrata o Brigue Palhaço, embarcação ancorada na Baía do Guajará, marcada pelo massacre ocorrido a bordo em 1823. Crédito: divulgação Trem Chic

Em Ceilândia, no Distrito Federal, a paisagem investigada é a Caixa D’Água, símbolo de uma cidade que nasceu do deslocamento compulsório de quem ergueu Brasília e não coube nela. O projeto teve acesso a um acervo fotográfico daquele processo e pretende localizar pessoas que viveram a mudança, registrando-as como protagonistas da própria paisagem. A exposição acontece no Jovem de Expressão, na Galeria de Artes Risofloras.

 

Imagem antiga da Caixa D’Água em Ceilândia. Foto: divulgação Trem Chic

O que acontece em cada praça

O desenho se repete nas quatro cidades. Há uma exposição de cerca de trinta dias em espaço cultural, reunindo as obras criadas para o território e trabalhos anteriores de Eder Santos que dialogam com elas. Há um circuito de seis pontos de realidade aumentada espalhados pelo espaço urbano, acessíveis gratuitamente a qualquer pessoa com celular. Há um ciclo de dez palestras, que reúne pesquisadores, artistas, agentes culturais e detentores de saberes locais, e cinco oficinas gratuitas voltadas à criação artística, ao audiovisual, à realidade aumentada e às questões de memória e patrimônio. Visitas guiadas atendem escolas, grupos organizados e público espontâneo, com pelo menos uma sessão por cidade dedicada a públicos com deficiência.

Três noites de projeção ao ar livre completam cada temporada, com videomapping em ponto ligado à paisagem pesquisada. Em Cachoeira e São Félix, as projeções ocupam o Rio Paraguaçu nos dias 17, 18 e 19 de dezembro, em articulação com o Festival de Saveiros de São Félix.

A parceria com universidades é parte do método. Em Cachoeira, Paisagens Imaginárias foi registrado como programa de extensão da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), com bolsas de monitoria para estudantes que vão acompanhar o cotidiano da exposição, mediar as obras e apoiar as atividades formativas. Em Belém, o projeto se articula com o Sistema Integrado de Museus e Memoriais, ligado à Secretaria de Cultura do Pará. Em Itabira, com a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. Em Ceilândia, a interlocução com a Universidade de Brasília (UnB) está em andamento.

O artista

Eder Santos nasceu em Belo Horizonte, em 1960, e é um dos nomes que organizaram o começo da videoarte no Brasil. Estudou Artes Plásticas na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais e se formou em Programação Visual pela Fundação Mineira de Arte Aleijadinho, em 1984. Seu trabalho explora o hibridismo da linguagem audiovisual e constrói experiências sensoriais a partir de distorções de cor e som, com planos que funcionam como pinturas sonorizadas, atravessadas por temas do cotidiano mineiro.

Expôs individualmente na Caixa Cultural de Curitiba, no Paço Imperial, no Sesc Pompeia, no Museu de Arte de São Paulo e no Centro Cultural Banco do Brasil. Participou de coletivas no Museum of Modern Art de Nova York, em 1993, na 23ª Bienal de São Paulo, em 1996, na Tate Modern, em 2017, e no Hammer Museum de Los Angeles, em 2025. Esteve na maioria das edições do Festival Videobrasil e recebeu o Prince Claus Fund em 2003. Tem obras nos acervos do Centre Georges Pompidou, do MoMA, Reina Sofia e dos museus de arte moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro. É representado pela Luciana Brito Galeria, em São Paulo, e pela Albuquerque Contemporânea, em Belo Horizonte.

A curadoria

Paisagens Imaginárias tem curadoria de Luiz Gustavo Carvalho, responsável também pela articulação do projeto com universidades, museus e prefeituras nas quatro cidades. É dele a pergunta que organiza a pesquisa: quem guardou a memória daquilo que sumiu?

Curador, artista e pianista, Luiz Gustavo Carvalho apresentou a sua primeira curadoria na França, em 2011. No Brasil, como curador de mais de cem exposições, apresentou pela primeira no país a obra de diferentes artistas visuais, tais como Antanas Sutkus, Serguei Maksimishin, Mac Adams e François Andes, entre outros. Em 2012, criou o Festival Artes Vertentes – Festival Internacional de Artes de Tiradentes, que recebeu durante as últimas quatorze edições mais de 550 artistas sob a sua direção artística. Entre 2011 e 2014 integrou a direção artística do Zeitkunst Festival, em Berlim. Participou de diferentes programas de residência artística na América do Sul, Europa e Ásia. Como curador independente, colaborou inúmeras vezes com o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, no Rio de Janeiro, e o Museu Oscar Niemeyer em Curitiba.

Acessibilidade

A acessibilidade foi desenhada como parte da obra. Todas as peças, nas três camadas do projeto, contam com audiodescrição. Os vídeos produzidos trazem legendas. O evento de lançamento de cada cidade tem intérprete de Libras, recurso estendido às palestras, às oficinas e a pelo menos uma visita guiada por praça. Os totens de QR Code foram posicionados em locais acessíveis e as obras ficam em altura que atende também quem usa cadeira de rodas. O site do projeto reúne medidas assistivas para pessoas cegas, com baixa visão e daltônicas, e as publicações nas redes sociais trazem descrição de imagem. Em cada cidade, o projeto firma parceria com uma entidade local de defesa dos direitos das pessoas com deficiência.

Serviço

Paisagens Imaginárias | Cachoeira e São Félix, Bahia

Abertura: 13 de novembro de 2026

Exposição: 13 de novembro a 20 de dezembro de 2026

Horário: Segunda a sábado: 09h às 12 e 13h às 20h

Local: CAHL/UFRB -  Rua Ana Neri, 9

Ciclo de palestras: 13, 14 e 15 de novembro

Projeções ao ar livre: 17, 18 e 19 de dezembro, no Rio Paraguaçu

Oficinas: datas a divulgar

Entrada gratuita

www.paisagensimaginarias.com

Instagram, Facebook, TikTok e YouTube: paisagens.imaginarias

Próximas cidades: Itabira (MG), na Casa Museu Carlos Drummond de Andrade, no primeiro trimestre de 2027; Belém (PA), no Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, no meio do ano; e Ceilândia (DF), no Jovem de Expressão, Galeria de Artes Risofloras, com data a confirmar.

Ficha técnica

Idealização e direção geral: Eder Santos

Curadoria: Luiz Gustavo Carvalho

Produtora: Trem Chic

Produção: Leandro Aragão, Barão Fonseca e Beatriz Flecha

Patrocínio: Petrobras, por meio do Programa Petrobras Cultural

Realização: Ministério da Cultura, Governo do Brasil

Mecanismo: Lei Rouanet, PRONAC 252221

Parceria em Cachoeira e São Félix: Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, prefeituras de Cachoeira e de São Félix, Fundação Hansen Bahia e Iphan — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

 

Paisagens Imaginárias é patrocinado pela Petrobras por meio da Lei Rouanet. Onde tem patrocínio à cultura, tem Governo do Brasil.

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